Mitos sobre criar uma criança multilingue, confrontados com a investigação
Quase tudo o que os familiares preocupados dizem sobre criar uma criança com várias línguas está errado, e algumas das promessas alegres que se leem na internet são mais frágeis do que parecem. Eis como as crenças mais comuns resistem aos melhores estudos que encontrámos, com a solidez das provas explicada em cada caso.

«Duas línguas confundem uma criança pequena»
Este é o mito com menos fundamento. Os bebés distinguem línguas logo nos primeiros dias e meses de vida, e é por isso que as investigadoras que aconselham os decisores políticos desaconselham adiar uma segunda língua por medo de confusão (Fibla e colegas, 2021). As crianças pequenas que misturam palavras de duas línguas na mesma frase estão simplesmente a usar todas as palavras que têm, tal como fazem os adultos bilingues (Byers-Heinlein e Lew-Williams, 2013).
«As crianças bilingues falam mais tarde»
Em média, não. Numa comparação entre 302 crianças de língua polaca a crescer no estrangeiro com uma segunda língua e 302 crianças semelhantes na Polónia, os dois grupos disseram a primeira palavra por volta dos 15 meses e chegaram às dez palavras e às primeiras combinações de palavras na mesma idade (Muszyńska e colegas, 2025). A crença sobrevive porque se conta uma só língua. Aos 30 meses, 47 crianças pequenas com espanhol e inglês sabiam cerca de 580 palavras somando as duas línguas, contra cerca de 540 palavras inglesas de 56 crianças que só falavam inglês (Core e colegas, 2013). Explicamos tudo no nosso artigo sobre crianças bilingues que falam tarde.
«Larguem uma língua se a criança fala tarde ou recebe um diagnóstico»
Este é o mito que faz mais estragos, porque as famílias seguem-no e quase sempre significa que um dos pais deixa de falar com o filho na sua própria língua. As revisões da investigação não encontram provas de que mais do que uma língua prejudique as crianças autistas (Gilhuber, Raulston e Galley, 2023), e nas crianças com perturbação do desenvolvimento da linguagem a terapia nas duas línguas ajuda a segunda língua tanto quanto a terapia só na segunda língua, apoiando ainda a primeira (Harvey, Allaway e Jones, 2018). As investigadoras que resumem a área consideram infundado o conselho de usar uma só língua com crianças com perturbações do desenvolvimento (Fibla e colegas, 2021).
«Se misturarem as línguas, a criança vai baralhá-las»
Aqui as provas são mesmo mistas, mas inclinam-se para a calma. Uma síntese de 2026 reuniu sete estudos com 541 crianças e concluiu que a mistura dos pais não tinha relação com o à-vontade das crianças a falar qualquer uma das línguas, e no máximo uma relação insignificante a pequena com a compreensão da língua maioritária (Verhoeven e colegas, 2026). Um estudo à parte com 52 crianças polacas e turcas nos Países Baixos encontrou de facto que mais mistura dos pais andava a par de um vocabulário falado menor na língua de casa, mas as autoras desaconselham expressamente separar as línguas de forma rígida, porque não sabem em que sentido vai a relação (Verhoeven e colegas, 2025). Se misturam muito e a língua de casa é a mais frágil, dar-lhe algum tempo sem misturas é uma precaução razoável.
«É preciso uma pessoa, uma língua»
É um bom sistema, mas não é obrigatório. No inquérito de De Houwer a 1899 famílias belgas, as crianças falavam mais vezes a língua minoritária quando os dois pais a falavam em casa, e o estudo conclui que «uma pessoa, uma língua» não era necessária nem suficiente (De Houwer, 2007). Um estudo neerlandês com 136 famílias concluiu que o padrão familiar deixava de contar muito assim que se media quanto de cada língua as crianças ouviam de facto (Verhagen, Kuiken e Andringa, 2022). A quantidade e a qualidade da língua pesam mais do que o rótulo do sistema.
«Falem em casa a língua do país para a criança estar pronta para a escola»
Quando os pais falam uma língua que aprenderam tarde, isto costuma sair ao contrário. Mães com um inglês limitado falavam tanto como as nativas, mas as frases eram cerca de um terço mais curtas e usavam cerca de 40 por cento menos palavras diferentes (Hoff, Core e Shanks, 2019), e num estudo neerlandês com 50 crianças em idade pré-escolar o que previa o neerlandês das crianças era a fluência dos falantes não nativos à sua volta, e não o facto de um dos pais ser nativo (Unsworth e colegas, 2019). Ler histórias em casa na língua da família até ajudou crianças em idade pré-escolar a aprender palavras inglesas tanto quanto ler em inglês (Roberts, 2008). O argumento completo está no nosso artigo sobre que língua falar com o vosso filho.
«Três ou quatro línguas são demasiadas»
Aqui há menos investigação, e a que existe tranquiliza. Em Montreal, 20 crianças pequenas trilingues sabiam um pouco menos palavras em francês e inglês do que 170 crianças bilingues, uma diferença estatisticamente pouco fiável que as autoras atribuem simplesmente ao facto de as trilingues ouvirem francês e inglês cerca de 73 por cento do dia (Côté, Gonzalez-Barrero e Byers-Heinlein, 2019). A terceira língua nem sequer foi contada. O limite real são as horas do dia, e fazemos as contas no nosso artigo sobre criar uma criança com três ou quatro línguas (em inglês).
«Um vídeo ou uma aplicação ensinam a língua»
Sozinhos, muito menos do que se espera. Bebés de nove meses aprenderam a distinguir sons do mandarim depois de cerca de cinco horas com uma falante em pessoa, e não aprenderam nada mensurável com a mesma quantidade de mandarim em vídeo ou em áudio (Kuhl, Tsao e Liu, 2003), e uma meta-análise de 59 relatórios estima a perda média de aprendizagem com vídeo em cerca de meio desvio-padrão para crianças até aos seis anos (Strouse e Samson, 2020). Nós próprios fazemos um jogo de línguas, por isso teríamos todos os motivos para dizer outra coisa, e ainda assim achamos que quem ensina de verdade é o adulto sentado ao lado da criança. Mais em o que as crianças pequenas aprendem de facto com os ecrãs (em inglês).
«O bilinguismo torna as crianças mais inteligentes»
Este é o mito alegre, e é sobretudo um mito. A ideia é que gerir várias línguas treina as funções executivas, o controlo mental por trás da atenção e da troca entre tarefas. Uma meta-análise de 2021 com 23 414 crianças encontrou uma vantagem minúscula para as bilingues, que desceu a zero quando os investigadores corrigiram a tendência para publicar mais facilmente os resultados positivos (Lowe e colegas, 2021). Outra meta-análise chegou a um efeito médio igualmente pequeno, com sinais de enviesamento de publicação e pouco apoio a uma vantagem geral (Gunnerud e colegas, 2020).
Não faz mal. As boas razões para criar um filho nas vossas línguas são as pessoas e os lugares que elas lhe abrem: avós com quem pode falar, os livros com que cresceram e mais do que um sítio que sente como casa.
O que os pais perguntam
Criar uma criança com duas línguas causa atraso na fala?
Não. Grandes comparações mostram que crianças bilingues e monolingues atingem as primeiras etapas, como a primeira palavra, na mesma idade. O vocabulário numa só língua pode parecer menor, mas o total entre línguas é semelhante.
Devemos largar uma língua se o nosso filho for autista ou tiver uma perturbação da linguagem?
As revisões da investigação não encontram provas de que uma segunda língua prejudique crianças autistas ou com perturbação da linguagem, e a terapia nas duas línguas apoia a língua de casa sem travar a outra.
Misturar línguas faz mal ao meu filho?
Uma síntese de sete estudos com 541 crianças não encontrou relação entre a mistura dos pais e o à-vontade das crianças a falar qualquer uma das línguas, no máximo uma pequena relação com a compreensão da língua maioritária. Os investigadores não aconselham uma separação rígida.
As crianças bilingues têm uma vantagem cognitiva?
Provavelmente não de forma fiável. Meta-análises com dezenas de milhares de crianças encontram uma vantagem muito pequena nas funções executivas, que desaparece ou quase desaparece depois de corrigido o enviesamento de publicação.
Fontes
- Bilingual language development in infancy: what can we do to support bilingual families?, Laia Fibla and colleagues, Policy Insights from the Behavioral and Brain Sciences, 2021
- Bilingualism in the early years: what the science says, Krista Byers-Heinlein and Casey Lew-Williams, LEARNing Landscapes, 2013
- Bilingual children reach early language milestones at the same age as monolingual peers, Karolina Muszyńska and colleagues, Journal of Child Language, 2025
- Total and conceptual vocabulary in Spanish-English bilinguals from 22 to 30 months: implications for assessment, Cynthia Core and colleagues, Journal of Speech, Language, and Hearing Research, 2013
- Language and communication skills in multilingual children on the autism spectrum: a systematic review, Christina Gilhuber, Tracy Raulston and Kasie Galley, Autism, 2023
- The effectiveness of therapies for dual language children with developmental language disorder: a systematic review, Hannah Harvey, Hazel Allaway and Sarahjane Jones, International Journal of Bilingual Education and Bilingualism, 2018
- The relation between parental language mixing and children's vocabulary outcomes: an evidence synthesis, Emma Verhoeven and colleagues, Child Development, 2026
- To mix or not to mix? The relation between parental language mixing and bilingual children's language outcomes, Emma Verhoeven and colleagues, Bilingualism: Language and Cognition, 2025
- Parental language input patterns and children's bilingual use, Annick De Houwer, Applied Psycholinguistics, 2007
- Family language patterns in bilingual families and relationships with children's language outcomes, Josje Verhagen, Folkert Kuiken and Sible Andringa, Applied Psycholinguistics, 2022
- The quality of child-directed speech depends on the speaker's language proficiency, Erika Hoff, Cynthia Core and Katherine Shanks, Journal of Child Language, 2019
- Predicting bilingual preschoolers' patterns of language development: degree of non-native input matters, Sharon Unsworth, Susanne Brouwer, Elise de Bree and Josje Verhagen, Applied Psycholinguistics, 2019
- Home storybook reading in primary or second language with preschool children, Theresa Roberts, Reading Research Quarterly, 2008
- Multilingual toddlers' vocabulary development in two languages: comparing bilinguals and trilinguals, Stéphanie Côté, Ana Maria Gonzalez-Barrero and Krista Byers-Heinlein, Journal of Child Language, 2019
- Foreign-language experience in infancy: effects of short-term exposure and social interaction on phonetic learning, Patricia Kuhl, Feng-Ming Tsao and Huei-Mei Liu, PNAS, 2003
- Learning from video: a meta-analysis of the video deficit in children ages 0 to 6 years, Gabrielle Strouse and Jennifer Samson, Child Development, 2020
- The bilingual advantage in children's executive functioning is not related to language status: a meta-analytic review, Cassandra Lowe and colleagues, Psychological Science, 2021
- Is bilingualism related to a cognitive advantage in children? A systematic review and meta-analysis, Hilde Lowell Gunnerud and colleagues, Psychological Bulletin, 2020
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